segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Inutilidades, poesia e beleza


"Certa noite, numa aldeia perdida no meio do mato, em Angola, ouvi um menino perguntar ao avô: "Para que servem as estrelas?"
O velho encolheu os ombros, suspirou e disse:
"Não são ocorrências de servir, meu neto. Estão lá só para fazer bonito."
A beleza é inútil e isso é tão lindo.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Solidão

ganhei de Tina!

"Há uma solidão boa. É a solidão necessária para ouvir música, ler, pensar, escrever. Mas há a solidão do abandono. Buber relata que, numa língua africana, a palavra para dizer "solidão"é composta de uma série de palavras aglutinadas que, se traduzidas, uma a uma, dariam a frase: "Lá, onde alguém grita: Oh! Mãe! Estou perdido!"
O trágico dessa palavra é que o grito nunca será ouvido, nunca terá resposta.

Rubem Alves no livro Palavras Para Desatar Nós.


terça-feira, 28 de abril de 2015

Pés amam poças

Instagram @elenabelysheva0

Ainda era preciso ter um guarda-chuva à mão, na bolsa, mochila, sacola.
O céu não estava confiável. Dava pra ler em sua cor.
Naquele momento tinha cessado. Durante a manhã também fora assim: aquele chove e para.
Subiu por ladeiras e chegou ao destino sem a companhia da chuva.
Ainda havia alguns minutos até que todas as crianças fossem liberadas.
Parou num lugar para se fazer visível e olhou para o pequeno pátio que ficava bem em frente à saída, uma pequena poça d'água. Curiosamente centralizada.
Começaram a descer a rampa as crianças tingindo o ar com algazarras. E rapidamente se espalhavam pela direita, esquerda, em diagonal e se iam. Entravam a maioria em carros, outras seguiam a pé.
Talvez algum atraso, algum recado de última hora e as que eu esperava demoravam a sair.
Três meninas então desceram como desprendidas de algum grupo e não se espalharam pelas periferias, ao contrário, como se puxadas por alguma força invisível, foram parar no centro da poça d'água.
Uma, deslizava suave o pé calçado, deixando marca na água como se estivesse velejando, outra, apenas parada ali, a sola dos sapatos mergulhada na rasa poça; a terceira preferiu ouvir o barulho de pequenas gotas espirradas e batia um pé de cada vez com força controlada.
Estavam felizes - a poça e as meninas.
Há uma magia, há um tom de presente surpresa desembrulhado numa poça.

Chegaram então as crianças que aguardava; chegaram os adultos que eu ouvia enquanto caminhava rumo à saída.
Menina, saia já daí. Está molhando o sapato. Ai que nojo pisando nessa água suja. Você já imaginou se molha o seu pé?

Caminhei mais rápido para ir me distanciando do poço de lamúrias.
Escolhemos um caminho diferente para o nosso retorno.
Havia uma poça que sugou as crianças que eu conduzia para o seu centro.
Fiquei em absoluto silêncio.
Queria ouvir o barulho do presente sendo desembrulhado.

domingo, 12 de abril de 2015

Igualdade


Aos desesperançados, aos que vivem, aos que sonham
a mesma oportunidade dada pelo Pai
um novo dia.

terça-feira, 24 de março de 2015

Profissão rara

Dona Carminha Cebolinha, uma velhota doce e também ranzinza, tem uma profissão rara.
Ela é uma consertadora de sonhos.
E foi este título que me fez comprar o livro e não me arrependi!


Dona Carminha vasculhava gavetas e esconderijos de meninos tristes
para descobrir sonhos esquecidos, antigos, que precisavam ser remendados.
Explicava que às vezes, sonhos esquecidos são levados pelo vento e dá uma trabalheira trazê-los de volta.
Certo dia um menino todo sujinho e que chorava muito foi procurá-la



Por sorte, o menino ainda tinha 7 anos e seu sonho não tinha sido levado pelo vento.
E dona Carminha ajudou, mas não pensem que ela paparicou.
Mandou o garoto jogar fora as lágrimas, mandou-o aprender a brincar de verdade, rir sem motivo, cantar, dar cambalhotas e só voltar lá depois de fazer tudo isso.
Ele aprendeu e só então ela foi ajudá-lo a recuperar seu sonho!

Há momentos na vida em que é tão necessário encontrar uma dona Carminha Cebolinha e tantos outros em que nós podemos ser a consertadora de sonhos e ajudar meninos e meninas a recuperar o seu sonho perdido.
Que a gente nunca deixe de sonhar!


segunda-feira, 23 de março de 2015

Dedicatória

*Este é um post de quinze minutos.

Na casa da minha infância havia apenas duas janelas. Uma, como o pai gostava de se gabar era veneziana de duas folhas, a outra, era uma janela que ele encontrou jogada em alguma demolição e trouxe, com algum sacrifício no fusca cor de vinho, lixou, limou, pintou de azul. Azul bem clarinho.
A outra, de folhas de correr e que ficava em meu quarto era marrom. Ambas ficavam boas, combinando com a caiação branca do nosso casebre.
Ocorre que a janela azul já trazia em si um pouco de céu e sol.
A minha não. Então, eu a abria, não por inteiro, uma boa fresta, larga até. E aí o sol entrava e eu já tinha afofado o travesseiro e feito o lençol voar até quase o teto e depois voltar suave, gordo, pousando mansinho sobre o colchão e murchando feliz. E só então acontecia.
Eu me sentava no chão num canto distante. Abraçava os joelhos e olhava: pela fresta, o sol; no feixe de sol a poeira rodopiava tão bonita.
Era um tempo bom que não precisava de explicação sobre prótons, elétrons, não precisava de máscara contra ácaros, não era proibido comer arroz e feijão como é hoje e batata-doce só mesmo no São João.
Apenas em silêncio eu olhava e um êxtase me tomava.
Depois, tinha mesmo que levantar e tomar o leite que deixava bigode branco porque ninguém tinha medo de leite.
Acho mesmo que foi por aquela janela que a poesia de Manoel de Barros adentrou, embora eu nunca ouvi falar em Manoel na minha infância, na minha escola, nas novelas que assisti.
Foi uma frase que dançava num feixe de luz vinda de um blog e depois, em outro. Eram passarinhos, era silêncio, era azul, como da janela que papai remendou.
Foram muitos anos sem me encantar com poeiras balairinhas, mas a janela sempre ficou com uma larga fresta aberta e a brisa traz tanta coisa boa, tanta poesia, tanto cheiro de mato e palavrices do poeta que habita o céu.
Esses dias entrou pela fresta uma história de amor. De amor, de poesia, de Manoel de Barros. Virou filme, virou curta-metragem.
O livro, agora eu tenho, e sempre que o abro vejo encantada o alaranjado do sol dançando, brilhando, não importa quão noite seja.
O encanto traz uma doçura, uma candura tão grande no peito que é mesmo preciso dividir, partilhar.

Aceita?

Curta metragem Dedicatória

 Abaixo uma descrição que acompanha o vídeo:
Em novembro do ano passado, uma pessoa super importante pra mim, iria fazer aniversário no dia 09. Mais ou menos uma semana antes resolvi dar de presente a ela o livro “Poesia Completa” do Manoel de Barros (poeta preferido dela). Quando cheguei em casa com o livro e decidi escrever a dedicatória. Porém, não consegui. Talvez pela infinita distância entre a beleza da escrita do Manoel e a minha. Ou talvez pela distância entre mim e ela. Não sei. Sei que com isso, comecei a pensar que era o próprio livro que não me deixava escrever nas suas páginas, pensei que como a poesia de Manoel de Barros foi escrita no meio do mato, o livro podia estar traumatizado por estar numa cidade de concreto, precisando se reencontrar com os lugares que ele foi concebido pra me deixar escrever a dedicatória. Pois é, viajei né? Sim, viajei. Dessa viagem da minha cabeça, acabou virando algo real. Como faltava só uma semana para o aniversário Dela, comprei uma passagem no dia seguinte para Campo Grande, terra do Manoel. Nesse momento, pensei em registrar toda essa trajetória de uma forma experimental, para ver se dali saía talvez um curta, um documentário, uma dedicatória. Passei 3 dias lá sozinho, levando o livro pela cidade, pelo meio do mato, no meio dos bichos e afins. Fazendo cada poesia do livro voltar a sentir “o cheiro do sol de lá”… Toda essa trajetória me levou a um final incrivelmente mais lindo do que eu poderia imaginar, mas isso prefiro que vocês vejam no próprio filme. Bom, voltando a trajetória, voltei para Porto Alegre e consegui finalizar o curta até o dia do aniversário. Entreguei para Ela o livro com um laço de presente, na Casa de cultura Mário Quintana. Mas, antes que ela abrisse o livro para ver a dedicatória, fomos até umas das salas de cinema de lá e passei o curta numa sessão fechada pra ela. Essa é a história desse curta, dessa experiência… espero que vocês gostem.”

sexta-feira, 20 de março de 2015

Disparos do bem


Não se preocupe que não é uma guerra.
É uma ideia criativa: disparar livros!
Esse tanque de guerra adaptado com prateleiras, leva 900 livros!
Clica aqui para conhecer essa interessante história!